Crise da água: ligações clandestinas de alguns afetam toda comunidade

Nesta semana em que o Jornal Nacional apresenta uma série de reportagens especiais sobre a água, você vai conhecer nesta quinta-feira (16) pessoas que se preocupam em usar sem prejudicar os outros, a comunidade, e a resistências de outras a essas iniciativas.

Entre os municípios de Betim e Contagem, a represa Várzea das Flores é um dos principais mananciais da Grande Belo Horizonte. Castigada pela seca, bem abaixo do nível normal, ela sofre, há muito tempo, com a ocupação irregular das margens.

“A gente vê que são as casas de uns padrões muito bons, que inclusive não são habitadas, são casas de veraneio”, conta José Coelho Ribeiro, superintendente da Defesa Civil de Betim.

E a navegação com a Defesa Civil de Betim revela mais: além da captação de água oficial, pela companhia de saneamento do estado, a Copasa, há muitas outras não autorizadas.

“Clandestina, ilegal, irregular”, diz José Coelho Ribeiro.

No caso da bomba flutuante mostrada no vídeo acima, os técnicos estimaram uma vazão de oito mil litros de água por hora. Equivalente ao consumo diário, recomendado pela ONU, de 72 pessoas. Neste caso, jorrando nos gramados de uma enorme propriedade particular.

Uma outra bomba não estava ligada, mas ao seguir a tubulação, subindo o barranco, o Jornal Nacional foi parar em um sítio, que é alugado para eventos. Lá dentro a gente reencontrou a trilha da água. Ela sobe por um cano, sobe para uma casa e também tem um ramal, que vai para outra casa, onde inclusive tem uma piscina. Será que é para isso que usam a água?

O caseiro telefonou para o dono do sítio. Ele chegou e confirmou o uso da bomba.

Jornal Nacional: Mas isso tem licença, Seu Osmar?
Osmar: Tem não... Isso tem muito tempo que tá aí. Nunca ninguém incomodou. Agora, se quiser tirar, eu tiro. Não tem problema.

Continuamos em Minas, agora a oeste de Belo Horizonte, em Monte Carmelo. O ronco é da moto do Luciano, também é conhecido como...

“Chamavam ‘o menino da água’. ‘Ó, o menino da agua está chegando ali’", lembra o leiturista Luciano Dias.

O nome certo da função dele é leiturista. Todos os dias, ele roda 180 quilômetros para conferir, em 14 pontos, o nível de rios e córregos explorados por agricultores, principalmente de café.

O café é de alta qualidade, mas depende de irrigação, pelo menos em parte do ano. A região tem pouca chuva em um período crucial: os meses que antecedem a florada do café. Como a necessidade de água é grande e a disponibilidade é limitada, o controle sobre o uso é cada vez mais rigoroso.

Ninguém tem licença individual para captar água. Ela é coletiva, de uma associação de usuários. Mais de 250, em 11 mil hectares de lavouras. Os dados levantados pelo Luciano determinam os volumes que podem ser retirados. No auge da seca houve rodízios e até interrupção total.

Leocarlos Marques Mundim, produtor rural: Nós ficamos mais ou menos 30 dias sem irrigar e aí veio a chuva.
Jornal Nacional: Por uma questão de compromisso?
Leocarlos Marques Mundim: De compromisso sim.

Já no interior de São Paulo, na pequena Monte Azul Paulista, a água, toda subterrânea, é motivo de polêmica.

Poços mal feitos, que não têm vedação na parte superior, estariam levando água contaminada com nitrato do lençol freático para o aquífero mais profundo. O nitrato é um composto químico presente em esgotos e pode causar doenças.

“Não era esperado que houvesse contaminação na porção profunda. Imaginava-se que estava restrita apenas na porção superior do aquífero. Porém, para nossa surpresa, o nitrato já está nas porções mais profundas”, conta o geólogo do Lebac Filipe Montanheiro.


Para estudar melhor o problema, há dois anos o departamento de águas do estado baixou uma portaria determinando o fechamento temporário de todos os poços da cidade, com exceção de 28 do serviço público de águas.

“As pessoas abastecidas pelo sistema estão recebendo água de qualidade boa”, afirma o engenheiro de vigilância sanitária Joel Arantes de Souza.

Dois poços públicos acabaram fechados. Difícil foi convencer os donos dos 145 poços particulares a respeitar a portaria.

“Nós temos um poço que a gente tem uma água que serve até pra beber. Por que que nós vamos fechar?”, diz uma mulher.

Muitos entraram na Justiça contra o Departamento de Águas. Como o dono de um posto de combustíveis.

“Fui correr atrás dos meus direitos. Que eu acho que é os meus direitos, até porque a gente tem posto de combustível. Eu dependo da água para trabalhar”, afirma o sócio do posto Moacir Rodrigues Junior.

Com várias empresas especializadas, a cultura do poço é mesmo bem forte em Monte Azul. O fato é que o tal estudo da situação do aquífero ainda não foi possível. Em busca de uma solução, a promotora de Justiça da cidade tem se reunido com os órgãos públicos interessados.

“Há um conflito entre o interesse particular e o interesse coletivo. Será que essa propriedade está produzindo sua função social? Ou será que ela não está prejudicando ainda mais o meio ambiente?”, questiona Maria Julia Facchim, promotora de Monte Azul Paulista.

 

A reprtagem completa e o vídeo pode ser vista em: G1 - Jornal Nacional

 
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